O Rodrigo e eu viemos de um contexto semelhante: eu sou filha de uma assistente social e de um corretor de seguros e o Rodrigo de um engenheiro e de uma professora primária, tivemos boas oportunidades de formação (escolas particulares, clubes, apoio...). Na adolescência, por curiosidade, nos envolvemos com drogas e tivemos o fim que todos aqueles que trilham este caminho acabam tendo: uma vida de sucessivas perdas, fracassos e desilusões daqueles que nos amam. Foram cerca de 9 anos de dependência química, onde dia fomos gradativamente perdendo o controle de nossas vidas, o convívio com a família, a auto estima, os amigos, a participação ativa na sociedade (eu lecionava, e cursava Pedagogia. O Rodrigo estudava Educação Física e trabalhava). As tentativas de parar com o uso das drogas foram inúmeras, nós fomos usuário de maconha, cocaína, drogas inalantes, álcool, cigarro e por fim eu utilizei o crack. Quando começamos com uso, parecia que estávamos entrando no portal da felicidade, até que nos deparamos com a cruel realidade: estávamos escravizados nos vícios! A família nos ofereceu diversos recursos, tais como grupos de recuperação alternativos, clínicas e tratamentos psicológicos, uso de psicotrópicos etc. O Rodrigo, em seu fundo de poço, foi parar dentro de uma delegacia, onde após ser apreendido com porte ilegal de entorpecentes, sentiu grande vergonha. Após este episódio, perdeu tudo o que lhe restava, entrou em uma forte crise depressiva e perdeu a vontade de viver. Sua família o internou, onde foi amarrado em uma camisa de força, logo após em uma cama. Em meio aquela tormenta, ele recebeu a proposta de ir para o Desafio Jovem de Três Coroas. Eu também estava sem nenhuma perspectiva de vida. Após quatro internações, entradas e saídas de consultórios psiquiátricos, passando toda a parte do tempo dopada (com drogas ou remédios). Foi quando em uma calçada de Porto Alegre, passou toda a minha vida como um filme na minha cabeça. Naquela noite eu havia consumido drogas e pensei que tinha duas alternativas: ou pedia mais uma vez ajuda ou terminava de acabar com a minha vida. Decidi tentar mais uma vez. Pedi ajuda para a minha mãe e fui levada a uma igreja por uns familiares evangélicos, onde me falaram do Desafio Jovem. No dia 14 de abril de 2003, o Rodrigo deu entrada no programa de recuperação e no mesmo ano, no dia 2 de dezembro, eu ingressei na ala feminina. No início tivemos muitas dificuldades, mas com o apoio da equipe, de nossa família e boa vontade conseguimos completar o programa de recuperação. Eu decidi ficar mais tempo na casa e tive muitas vitórias. Ingressei na faculdade novamente, passei a auxiliar as mulheres que chegavam na mesma situação que um dia eu estive, comecei a sonhar com o futuro... Aos poucos o meus sonhos foram se tornando realidade. Já fazendo trabalho voluntário na instituição, conheci o Rodrigo e começamos a namorar, noivamos e nos casamos. O Rodrigo teve o mesmo processo: completou o programa, resolveu ficar voluntariamente para ajudar outros homens como ele foi ajudado, retornou à faculdade... Em 2010, retornamos para nossa cidade. Hoje, continuamos estudando, trabalhando, auxiliando outras pessoas no Café Convívio e estamos muito felizes, pois aguardamos a chegada da Isabella, fruto de todas as nossas conquistas. Que Deus lhe abençoe ricamente!